É comum que toda cidade surja próximo a um porto ou nos arredores de uma igreja. Canguaretama não foi assim surgiu antes de se construir uma igreja, antes de ter um porto. Não era uma terra onde havia um rico proprietário, pelo contrário, a cidade surgiu onde moravam pobres descendentes de negros e índios. Política e administrativamente o município de Canguaretama somente passa a existir na segunda metade do século XIX, mas seu território já era habitado e disputado antes do século XV. Como município, tornou-se a continuidade de Cunhaú e Vila Flor. Poderíamos dizer que seus primeiros habitantes foram os índios potiguares, mas é bem provável que esses índios já tenham expulsado outros grupos para ocupar a área. Eram índios que se utilizavam da agricultura, conheciam bem a fauna, a flora e a geografia do lugar. Teriam sido absolutos nesse território que julgavam ser donos durante os séculos XV e XVI.

Durante o século XVI os franceses mantiveram intenso contato com os potiguares na localidade de Aretipicaba, hoje Baia Formosa, e Corimatai, hoje Barra do Cunhaú, para contrabandear pau-brasil.

Depois de fazer uma aliança de paz com os potiguares, expulsar os franceses e fundar a cidade de Natal, Jerônimo de Albuquerque doou, a 2 de maio de 1604, uma sesmaria aos seus filhos Antônio e Matias de Albuquerque. Eram cinco mil braças quadradas de terras, onde foi erguido o famoso Engenho Cunhaú, o primeiro da capitania. Além de muito açúcar, o engenho também produzia farinha de mandioca, milho e criava-se gado em abundância. Junto com o engenho vieram os primeiros colonos europeus, os negros escravos africanos e os padres católicos para pregar o evangelho na região.

Tudo ia muito bem com o engenho, mas outros problemas surgem distantes da colônia. Os holandeses temendo perder o controle do comércio do açúcar, desde que o Brasil passou a ser uma possessão da Espanha, decidiu invadir o nordeste brasileiro. Tiveram êxito em 1630, invadindo a Capitania de Pernambuco e logo expandiram seu domínio até a Capitania do Rio Grande. Depois de tomar a Fortaleza dos Santos Reis e a cidade de Natal, conquistaram e destruíram o Fortim da Barra do Cunhaú. O Engenho Cunhaú foi confiscado pela “Companhia das Índias Ocidentais” e passou a ser administrado pelos holandeses.



A partir de 1643 os holandeses começaram a exigir mais lucros com a produção açucareira e também proibiram o culto católico. O pagamento do dízimo foi suspenso para que os senhores de engenho usassem os recursos para pagar os juros dos empréstimos concedidos para a reconstrução dos engenhos. A população não aceitava, porém não tinham muito o que fazer.

Com o clima de hostilidade que aumentava, em 15 de julho de 1645, Jacob Rabe, liderando uma milícia holandesa e um grupo de índios tapuias e potiguares chegou ao Engenho Cunhaú dizendo trazer instruções holandesas de Pernambuco. No dia seguinte, ordenou a matança do padre André de Soveral e de todos os fiéis que assistiam a missa dominical naquela manhã. 69 mortos. Poucos conseguiram fugir.

Ainda em 1645 foi iniciado um movimento que pôs fim ao domínio holandês, a Insurreição pernambucana. Pela primeira vez brancos, índios e negros se uniram e expres
saram sua “brasilidade”, porém o Brasil continuou como colônia.

A partir de 1654 os holandeses desistiram do Brasil. A terra retornou às mãos dos portugueses, mas quase tudo precisava ser reconstruído. Casas, rebanhos, plantações, famílias, tudo tinha sido arrasado. Além do mais o preço do açúcar começou a cair devido a concorrência internacional.

A poucas léguas a leste do Engenho Cunhaú surgiu, ainda no século XVII, o aldeamento indígena de Gramació. O Alvará Régio de 23 de setembro de 1700 deu a esses índios uma légua quadrada de terra. Em 1743 o padre André do Sacramento iniciou a construção da Igreja de Nossa Senhora do Desterro, que foi concluída em 1645.

Com a Carta Régia de 3 de maio de 1755, Dom José I, rei de Portugal, elevou todos os aldeamentos indígenas da capitania à categoria de vila. O aldeamento de Gramació passou então a chamar-se de Vila Flor, porém a instalação oficial só veio a ocorrer em 1768.

No inicio do século XIX o Engenho Cunhaú estava novamente no apogeu. André de Albuquerque Maranhão comandava a maior riqueza que a capitania já havia visto em metais preciosos, terras, dinheiro, gado, escravos e utensílios.

Movido pelas novas idéias de liberdade vindas da Europa, o senhor do Cunhaú aderiu a um movimento separatista iniciado em Pernambuco e transformou o Rio Grande do Norte em uma república, juntamente com Estados vizinhos. Foi a chamada Revolução Pernambucana de 1817, que não teve o apoio popular esperado.

Os contra revolucionários pegaram “Andrezinho do Cunhaú” de surpresa e depois de muita luta, ele foi ferido e levado preso para o calabouço da Fortaleza dos Santos Reis, onde faleceu na madrugada de 25 para 26 de abril de 1817.

Ninguém sabe dizer o que teria ocorrido se ele tivesse escapado para seu engenho. Dona Antônia Josefa do Espírito Santo Ribeiro, sua mãe, faleceu ao receber a notícia do triste fim do filho. Os bens da família foram confiscado por ordem do Provedor da Fazenda Real. Em 18 de agosto de 1823, já depois dos réus da Revolução de 1817 terem sido perdoados, aconteceu o inventário desses bens. O Brasil já vivia um período histórico diferente com independência, ocorrida em 1822.

Com a chegada da independência a vida das pessoas não mudou muito na região. Entretanto, mais tarde, em Vila Flor, uma contenda entre dois políticos faria surgir Canguaretama.

O padre José de Matos Silva não se entendia com Sebastião Policarpo de Oliveira, o senhor do Engenho Juncal. Para provar sua força política na região, o padre, que era deputado provincial pelo partido conservador, pediu a mudança da sede de Vila Flor para o pequeno e atrasado povoado do Uruá. Não foi fácil, mas ele conseguiu.

Em 1860 uma igreja estava pronta, mas era pequena. Foi iniciada outra construção no mesmo lugar. Em 1865 muitos homens deixaram a cidade para engrossar as fileiras de “voluntários da pátria”, que seguiram como soldados para defender o Brasil na guerra do Paraguai. Dos que foram, apenas David Napomuceno conseguiu voltar em 1870.

Em agosto de 1877 um acontecimento iria marcar o pequeno povoado de Baia Formosa. O senhor do “Engenho da Estrela”, João de Albuquerque Maranhão, foi até o povoado para desalojar os moradores alegando posse indevida. Armados de facas e cacetes, os moradores enfrentaram a escolta agressora. Houve seis mortes, entres as quais um filho de João de Albuquerque.

Quando os primeiros trens passaram pela “Estação da Penha”, em 1882, o centro da cidade já era servido de iluminação à gás. Os candeeiros eram apagados nas noites de lua para evitar o desperdício.

A vila de Canguaretama passou à categoria de cidade através da Lei N.º 955 de 16 de Abril de 1885, de autoria do deputado provincial Francisco Gomes da Rocha Fagundes. Não houve festa para um ato tão merecido. A festa maior ocorreu em 4 de março de 1888, com a abolição da escravatura na cidade e a 18 de novembro de 1889, com a comemoração da proclamação da República.

Em 10 de maio de 1890 o município de “Cuitezeiras”, atual Pedro Velho, foi desmembrado de Canguaretama. No mesmo ano foi iniciado os trabalhos da construção da Igreja de São José, que foi concluída em 1892 pelos operários da cidade, época em que também estava sendo erguida a capela de Nossa Senhora da Conceição em Baia Formosa.

No início do século a cidade possuía um serviço de transportes urbanos. O percurso era feito de bonde à tração animal e troles, com os trilhos ligando o porto à estação. Transportava-se principalmente sal, madeira, açúcar e aguardente, além dos passageiros que serviam-se dos trens da “Great Western”.

Durante os anos de funcionamento apenas um acidente ficou conhecido e vitimou o garoto José Lucas. No local do acidente foi erguida a Capela da Santa Cruz. O garoto virou santo popular.

Em 1910 é instalada em Canguaretama a primeira usina de açúcar do Rio Grande do Norte, a Usina Maranhão, propriedade de Fabrício Gomes de Albuquerque Maranhão. Além de empresário, Fabrício Maranhão também era um político de destaque. Irmão dos governadores Alberto Maranhão e Dr. Pedro Velho, ele presidiu a intendência de Canguaretama por ininterruptamente por duas décadas e ao mesmo tempo ainda assumia o mandato de deputado estadual.

Em 1930, a cidade viu a destituição do prefeito e movimentos políticos exaltados. Em 1935 Aliança Liberal tentou organizar um governo socialista no Brasil. O movimento começou em Natal, no dia 23 de novembro, mas logo foi contido pelas tropas do governo. Dois canguaretamenses estavam envolvidos no movimento: os irmãos Arnoud e Oscarina. Ao chegarem a cidade, quase toda população procurou abrigo nas matas com medo dos “comunistas”.

Durante a “2ª Guerra Mundial”, dois Canguaretamenses participaram dos combates na Itália: o “Capitão Raul” e o “Dr. Hernani”, que voltaram para contar a história. Na época já existia um campo de pouso na Salina São Felix, mas outro foi construído no Jiqui. A foz do rio Cunhaú era vigiada ininterruptamente. Houve um grande racionamento de combustível e a população mais pobre se valia de sementes de mamonas na ponta de palitos para vencer a escuridão daquelas noites.

Mal terminara a guerra e a cidade já estava organizando uma grande festa. Foi o “I CONGRESSO EUCARÍSTICO PAROQUIAL”, em celebração aos trezentos anos do morticínio do Cunhaú. O evento, organizado pelo padre Antônio Barros, ocorreu nos dias 1, 2 e 3 de outubro de 1945, obteve grande repercussão e fez nascer a primeira esperança de canonização dos Mártires de Cunahú e Uruassú. Todas as autoridades civis e eclesiásticas do estado tomaram o caminho de Canguaretama, junto veio a elite intelectual da época.

Em 1954 a Câmara Municipal de Canguaretama recebe pela primeira vez mulheres para legislar. Foram as irmãs Guacira Nobre de Lima e Gasparina Nobre, eleitas no então povoado de Baia Formosa.

Em 31 de dezembro de 1958 o município de Baia Formosa foi desmembrado de Canguaretama, mas só foi instalado em 17 de janeiro do ano posterior. O município de Vila Flor foi desmembrado em 31 de dezembro de 1963 e instalado no outro dia. Por essa época o povoado de Piquiri já se firmava com o apelido de “Piquiri das Casas”.

Em 1964 um golpe de Estado coloca os militares no poder. Os soldados “marcharam” sobre a cidade, mas ninguém se sentiu seguro. Neste ano uma catástrofe natural pegou todos de surpresa: uma enchente inundou quase toda a cidade, trazendo desespero para muitas famílias que perderam tudo que tinham. O abrigo principal foi a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

O fornecimento de energia elétrica já existia desde o início do século, mas o velho “Motor de Romualdo” foi desligado quando o governo do estado trouxe a COSERN à cidade. Postes de concreto foram plantados e fios pendurados pelas ruas para levar a energia das grandes hidrelétricas às casas.

A inauguração aconteceu na madrugada de 27 para 28 de setembro de 1965. Depois disso começou a capitulação dos engenhos, que deram lugar a Usina. As salinas ainda agüentaram mais um pouco, mas não suportaram a concorrência. Hoje as fazendas de camarões ocupam os terrenos onde antes funcionaram os tanques de cristalização do sal e criação de peixes.

Em 1967 foi inaugurado o primeiro “ginásio”, o 16 de Julho. E em pleno regime militar (1968), os estudantes publicaram um jornal próprio: o “Sentinela Estudantil”. Não foram pioneiros, apenas seguiram uma tradição de boas edições como “A Penha” de 1915, a revista “Vesper” de 1919, “O Potiguar” de 1922, o “Cunhaú” de 1936 e “O Estudante” de 1955.

Os anos 70 não foram tão significativos. Em 1971 a cidade recebeu a notícia do suicídio de José de Carvalho e Silva, o maior líder político no município depois de Fabrício Maranhão. Houve a inauguração do Hospital Regional de Canguaretama em novembro de 1974.

Em 1985 uma grande festa para comemorar o centenário de elevação do município à categoria de cidade foi feita. Recebemos a prazerosa visita do nosso poeta maior, Homero Homem, que escreveu o Hino do Centenário.

Em 1988 foi iniciado o processo de beatificação dos mártires de Cunhaú e Uruassú, tendo a frente o monsenhor Francisco de Assis Pereira. No mesmo ano surgiu o Jornal “A Voz da Penha”, que se regionalizou nos anos 90 com o nome de “A Voz do Agreste”. Sua 1ª edição totalmente informatizada circulou em 30 de outubro de 1999.

Em 1995 foi realizado o II CONGRESSO EUCARÍSTICO PAROQUIAL. O evento, organizado pelo padre Gilvan Miguel Pereira, relembrou o Morticínio de Cunhaú e Uruassú em seu 350º aniversário, entre os dias 5 e 8 de outubro. Na confiança de uma beatificação, a cidade fez a festa que marcou o fim do século. Na época surgiu o Jornal “O Soveral” para divulgar e registrar os fatos marcantes da paróquia.

Em novembro de 1998 “A Boa Notícia”, boletim informativo da paróquia, anunciava a boa perspectiva em relação a beatificação do Pe. André de Soveral, Pe. Ambrósio Francisco Ferro e seus 28 companheiros. “O Soveral”, em sua VI edição, noticiou a beatificação dos “Protomártires do Brasil” para o dia 5 de março do ano 2000, em Roma.
HISTÓRIA DO LUGAR